Sou do tempo que todo o cabeludo era maconheiro e marginal; camiseta de banda era contrabando; jeans rasgado era sinal de pobreza e tênis sujo era sinal de porquice. Sou do tempo dos flyers, dos zines de fundo de quintal e da compra de elepês por carta pelo correio. E dos catálogos pelo correio também... legitimamente ilegais éramos... sou do tempo da “Megaforce” e da “Madhouse” em Porto Alegre. “Exclusive” em Santa Maria, dos Projetos Mosh, da fita k-7, das coletâneas, dos compactos, das minas de preto que CURTIAM realmente o som que faziam parecer que curtiam. Sou do tempo que se aprendia fazendo, como não havia professores capazes de ensinar, cada instrumento era aprendido alone ou with the own band com todos tocando juntos e fazendo o maior barulho. Ninguém sabia o que era uma sétima ou meio-tom abaixo ou acima. E tínhamos uma qualidade que considerava impecável: RESPEITO!! Um respeito mútuo entre os “marginalizados” que fazia com que se curtisse muito som bom e se conhecesse muita banda boa através dos contatos pela Rock Brigade, dos zines de fundo de quintal. As amizades eram sinceras pois todos tínhamos problemas em comum como conseguir aquele disco daquela banda com aquela música... e éramos unânimes em alguns pontos: “Brasil” foi o melhor disco do RDP e Dave Lombardo era o melhor baterista do mundo.
Estou no tempo em que cabeludo tem em qualquer canto; camiseta de banda se faz em casa; jeans rasgado se compra das marcas mais caras e em lojas de grife e tênis sujo custa mais de quinhentos reais. Estou no tempo dos mails, dos sites de relacionamento e dos downloads diários... O que é catálogo mesmo? Legitimamente ilegais somos... Estou no tempo da “Multisom” e do “Carrefour” em qualquer cidade. “Getúlio” em Poa com toda a sua canastrice, dos Projetos Sapucay e Quartaneja, do pen drive de 2 e 4 gigas e seleções mp3, das minas coloridas que não curtem nada além do que a roupa que vestem as faz parecer que curtem. Estou no tempo que se não souber, nem tente; professores existem aos milhões, só se pega banda pronta; cada instrumento deve ser minuciosamente estudado e afinado antes de qualquer together ou with the others band com ninguém se conhecendo e fazendo um som que ninguém gosta; mas sem barulho. Todos sabem o que é sétima, meio-tom acima e abaixo. E procuro seguidamente uma qualidade que considerava impecável!!! E hoje os problemas em comum são: Di Ferrero é mais bonito do que o Victor que é mais lindo do que o Léo...
Hoje tá tudo fácil, o acesso livre e incontrolado talvez fosse o sonho de consumo dos anarquistas, mas o viés é que a facilidade incute em menosprezo e não mais zelo. O suor da conquista foi gradativamente substituído pelo riso da facilidade...
Rockissimo foi zine, programa de rádio, festa e hoje é um blog... o mundo “evolui”... tentarei acompanhá-lo... então: FULL SPEED AHEAD, como diria Kurt Brecht, lembra? O vocalista do D.R.I. Ficou fácil, não?
Márcio Rockissimo